Arquivo mensal: Agosto 2025

Não somos um país de incendiários, somos um país sem saúde mental

Se tal como existe um IRA – Intervenção e Resgate Animal, existisse um IRP – Intervenção e Resgate de Pessoas, provavelmente quase 20% das pessoas que vivem no nosso país à beira-mar plantado, teriam de ser resgatadas, por maus-tratos ou por viverem em condições indignas ou sem acesso aos cuidados essenciais de saúde física e psíquica.

Portugal vive num estado de “fachada” sem precedentes, onde o que importa é o aspeto fora de portas, mas onde apesar de tanta preocupação com as barracas do Talude Militar em Loures e tantos outros, o que se vive até em bairros “não sociais” dentro de portas, tem mais de terceiro mundista do que de um país civilizado.

Estamos muito preocupados com o que arde todos os verões, os números de área ardida são armas de arremesso político dos partidos da nossa praça, mas há outros números que não se mostram, os números das desgraças humanitárias em que são deixados muitos dos que habitam o interior do país, muitas vezes sós e esquecidos, entregues à sua própria sorte, na solidão total que por vezes se transforma na companhia de uma garrafa de vinho e, onde psicologia é vista como uma modernice de Lisboa, que é etérea no interior quer por inexistência quer por insuficiência de resposta que até em grandes centros urbanos se verifica.

Se somos um país de incendiários? Não. Não somos. Mas o verdadeiro argumento não interessa aos partidos políticos. O que somos é um país sem acesso à saúde mental, onde quem sofre de problemas de saúde mental é entregue à própria sorte e, uns suicidam-se, outros pegam fogo ao que calha por vezes para chamar à atenção, outros mutilam-se, outros matam-se aos poucos com recurso à droga que tiverem à mão e, o álcool é a mais acessível, sem que exista legislação que impeça o caixa de um supermercado vender uma garrafa de bebida alcoólica a alguém que sabe ter problemas com o álcool, até porque é contrário aos interesses do patrão e, isto observa-se quotidianamente tanto no interior quanto nos grandes centros urbanos.

Sim, provavelmente ¼ da população nacional necessita de cuidados de saúde mental, mas não tem acesso a eles, porque não existe sequer uma estratégia nacional de saúde mental, o que existe são operações de cosmética de fachada em torno do assunto e, não se vislumbra sequer por parte da esmagadora maioria das forças políticas tanto na Assembleia da República quanto nas Assembleias Municipais, uma preocupação realista acompanhada da necessária coragem de abordar o tema e apontar soluções a materializar de facto, porque de palavras e falsas promessas estão as portuguesas e os portugueses fartos.

Importa reconhecer a dimensão e a gravidade de um problema social, que não se resolve atirando 25% de aumento aos Bombeiros no DECIR que face ao risco que correm não deveriam auferir menos que um primeiro ministro, não se resolve subornando a Polícia Judiciária com subsidio de risco para aumentar a eficácia na caça àqueles que esquecidos pelo estado gritaram por ajuda com um isqueiro na mão, não se resolve com promessas de aumentos progressivos aos efetivos das forças de segurança que não evitam que continuem a encostar a arma à cabeça e a carregar no gatilho. A solução é estrutural e passa por transformar a rubrica de despesas extraordinária atual saco azul do orçamento geral do estado, em remunerações e regalias sociais dignas e justas e, dar à saúde mental a atenção que merece e que na prática nunca saiu do papel. Psicologia não é coisa de sociedades desenvolvidas, é uma necessidade das sociedades em desenvolvimento e em que as mutações sociológicas devido aos atrasos de desenvolvimento ocorrem a uma velocidade de deixar muitos sem norte, como por exemplo na transição digital, que deixa os menos instruídos muitas vezes em situações de incumprimento e com multas às costas sem perceber muito bem porquê, ou que simplesmente os deixa desamparados porque não se entendem com os sistemas de atendimento telefónico da dita inteligência artificial ou, não se entendem com os serviços online, que tal como o e-clic da segurança social fica tantas vezes sem resposta.

Há um grave problema estrutural que concorre para tudo isto, agravado pela política de fronteiras abertas que ocupa os nossos funcionários públicos com os casos dos que vão chegando e precisam de encontrar resposta e, têm menos tempo para responder aos que já cá estão há anos, ou desde sempre, sem que os quadros desses serviços tenham acompanhado a procura desses serviços.

Tudo isto concorre para o incendiarismo, para o suicídio, para a degradação da vida das pessoas dentro de portas, para as que têm a sorte de ter portas e não terem o céu como teto da sua “casa”.

Aqueles que dizem representar os eleitores na Assembleia da República não conhecem a realidade do país, as campanhas fazem-se nas ruas, não entram dentro de casa das pessoas, o mundo dentro de portas não é cor de rosa como nas ruas, é negro, muito negro, diríamos mesmo, um monte negro.